Rio das Mortes - Kdu Magalhães

Como é duro ser guia em água doce....

Como sabem, tenho uma firma que leva gringos para pescar em alto mar. Eles chegam no cais as seis da manhã, pescam o dia todo, e voltam felizes à noitinha. O barco é meu, mantido por mim, com uma tripulação super eficiente. Não me lembro de jamais ter enguiçado em alto mar, ou de um cliente se queixar de alguma falha. Pudera, faço isto há 10 anos, e sempre tudo está sobre controle.

Mas caí na besteira de pensar que podia virar guia em água doce. Levei uns clientes para pescar em território Xavante, no Rio das Mortes, perto de Água Boa. Quebrei a cara legal. Pegamos muito peixe, pois lá o território é muito pouco explorado. Fora isto tudo deu errado conforme podem ver pelo meu diário.

Nesta hora é que devemos dar valor a empresários como o Ataualpa Catalan, o qual mantém o Rancho Xingu sempre funcionando como um relógio.

Acompanhem o meu diário, para ver como imprevistos podem liquidar uma boa pescaria

Diário da viagem ao Rio das Mortes em Outubro de 2004.


9/sábado. Encontro os gringos no Município de Água Boa. Vieram de Goiânia na Viação Xavante. Ônibus excelentes. Às 12 horas chegamos no porto de saída. Saímos em três barcos, (O quarto já tinha ido para lá na véspera com o Iram, o chefe Zezinho , o índio Tonhão, e o índio Murilo). Os barcos estão superlotados. Os piloteiros e o cozinheiro, tinham trazido tanta bagagem, camas, colchões , barracas e etc, que ocuparam um barco todo. Os barcos estavam sem estrados, sem assentos, com umas peças de ferro pesadíssimas para serem usadas como poitas, mas sem armações para ferrar no fundo. Alem disto não vieram os cabos de âncoras, e um dos barcos fazia muita água. Quinze minutos rio abaixo descubro que tinham deixado o motor de reserva no porto. Pago o maior esporro, e mando voltarem para pegar o motor. O Valdomiro se ofereceu para conseguir um quinto barco. Os dois piloteiros foram duas grandes malas. Um , o mais velho até que entendia do Rio. Mas só fazia o que queria, danem-se os turistas. O mais novo, era um zero a esquerda.


Continuo a viagem sozinho com o Maury e o David. Bem na travessia da Barreira Amarela caiu um temporal com ventos de mais de 80 quilômetros. Verdadeiras ondas arrebentavam na proa quadrada de nossa chatinha. O barco quase alagou. Paramos na margem para nos abrigar, pois o vento e a chuva tornavam impossível a navegação. Ao encostar bati em um banco de areia, mas conseguimos nos proteger. Apareceram três ariranhas gritando e reclamando. Aparentemente estávamos parados em frente as suas locas. Quando o vento melhorou tentamos sair mas não deu, e tivemos que parar outra vez. Muita água no barco. Na confusão meu gps caiu no fundo do barco e molhou todo.

Uma hora depois prosseguimos a viagem e chegamos as 16h00 no acampamento. Para nossa agradável surpresa estava tudo montadinho, com café quente. E uma paca assando, pois os índios tem licença para caçar.

Impressionante como os índios trabalharam para abrir a picada do porto até o centro da ilha. Tinham até colocado um balde numa roldana preso ao um galho de árvore para tirar água do rio. Como nossa bagagem estava em outro barco, abrimos a mala do Skip, e tiramos roupas secas dele. Uma barraca também, que o David e o Maury, não conseguiram montar. Foi cômico. Depois descobrimos que o Skip tinha trazido os tubos de sustentação errados. Improvisamos um arroz com peixe, e uma sopa que tinham sobrado da viagem passada. Os outros chegaram as 17h30. Como ainda chovia, dormimos amontoados em baixo da lona grande que o Iram tinha armado..

10/domingo. Só conseguimos arrumar o equipamento e sair para pescar as 10h30. Americanos irritados. O problema é que devido a chuva e aos atrasos de ontem, não pude preparar o material deles na véspera. Não sabem dar um nó. Fomos ao lago Joaquina pela manhã. Na ida vimos um enorme mutum. O índio Murilo atirou e errou a menos de 15 metros. Depois atirou mais duas vezes e errou. Me lembrei de “Dersu Urzala”. Grande filme de Akiro Kurosawa sobre um caçador siberiano que quando fica velho perde a visão, e morre na floresta.
Durante o dia, vimos diversos bandos de pássaros se esquentando ao sol.


À noite saí com o Skip num barco com o piloteiro novinho, e os outros com o mais velho. Ficamos no dedo, porque a porra de nosso piloteiro se desencontrou do outro. Os outros pegaram duas pirararas grandes e um peixe que provavelmente era um filhote e quebrou a linha.. Mas durante o dia é impossível pescar devido às piranhas. Os barcos vieram com umas poitas muito ruins, e sem cabos. Improvisamos uns cabos finos que cortam as mãos. Maldito Beto, comerciante de uma casa de pesca em Xavantina, o qual nos alugou os barcos, motores e contratou os piloteiros. O barco não tem estrados e o motor de reserva é um de 14 cavalos. Americanos reclamam da desorganização. À noite fico na moita perto das barracas para ouvir os comentários dos mesmos. Não estão muito contentes com tudo. Reclamam do excesso de pessoas e da desorganização. Chegaram a comparar nossa expedição ao filme “Exercito de Brancaleone! Estou preocupado, com a possibilidade de só podermos pescar a noite, pois nos lagos durante o dia quase não tem Tucunarés. Assim fica difícil vender as próximas viagens. Tenho que descobrir um jeito de pescar durante o dia. Os piloteiros não conseguem se entender, e saem um para cada lado. Deixam para pegar as iscas na hora de sair, o que irrita os americanos. Os gringos também não entendem porque tem tanta gente no acampamento. Eu, Hiram, três índios, dois piloteiros, o cozinheiro, e um chato local que apareceu na última hora, de um jeito que não pudemos descartar. Os gringos não conseguem ficar sossegado, com o barulho das conversas cruzadas. Os membros da equipe agem como se estivessem de férias, e não trabalhando. Haja paciência”.
11/segunda. Fui com o Davis ao lago pela manhã. Pegamos um pirarucu e vário cacharas.

O circle hook funciona mesmo. Mas batemos o lago todo outra vez, e nada de tucunarés. Na volta descobrimos as corvinas em frente ao acampamento. Após pegarmos muitas, chamamos o outro barco. Mas o piloteiro se recusou a vir, e levou o pessoal de volta ao acampamento. Fomos lá e pegamos o pessoal, e voltamos ao ponto para pegar mais corvinas. A moral está melhorando. À noite o David pegou um peixe enorme que levou toda a linha para o meio do rio. Provavelmente um filhote.

12/terça
Descobrimos as corvinas na praia, e muito peixe como cachorras e bicudas. No meio da praia tem um drop off, onde tem muito peixe. Ancoramos os barcos na beira dele, e é um peixe atrás do outro. Pescavam até com duas varas ao mesmo tempo.

Definitivamente os gringos não sabem pescar. O David perdeu um peixe de uns 15 a 20 quilos. Como arrebentam muita linha, fico todo o tempo consertando equipamentos, e quase não pesco. Mas mesmo assim me diverti muito. Não tinha trazido meu equipamento de fly, pois meu objetivo não era pescar, mas sim trabalhar pro meus clientes. Mas mesmo assim, ao achar uns streamers na minha caixa de pesca, improvisei com uma varinha telescópica uma vara de fly. Coloquei um spiderware de 30 lb,(as linhas de multifilamento flutuam bem) e deixava o streamer deslizar rio abaixo. Recolhia na munheca, e pegava um peixe atrás do outro. Entrou até candiru Açu. Na próxima vez que voltar lá vou a forra. È o melhor lugar para pescar de fly que já pesquei até hoje. (se bem que não seja um “entendido"). À noite fomos pescar no lago Pintado. Ao encostarmos à margem do rio, em frente ao lago, lá já estavam dois de nossos barcos encostados uns no outro. Ao pararmos na margem junto a um dos barcos, um jacaré ficou imprensado entre o meu barco, e o qual encostei. Se assustou e pulou para cima. Caiu dentro do barco que já estava parado. E Graças a Deus vazio..Ao ver que tinha caído no barco o jacaré pulou para fora e caiu dentro do outro barco. Depois pulou para fora dentro do rio. Deu para filmar a cena. David e eu tomamos um porre à noite. Parece que agora as coisas já se acertaram. Os gringos só se confraternizaram com o cozinheiro Francisco Chagas Filho, por sua boa vontade e humor. Foi o único da equipe que deram gorjeta do bolso deles.

13/quarta. David de ressaca não foi pescar. Fiquei com ele para começar a empacotar minhas tralhas. Os outros voltaram para pescar na praia. Pegaram muito peixe, inclusive nas artificiais. À tarde pegamos muitos peixes, até piraras.

O nosso guia Índio, o Tonhão, pediu licença para pescar algumas piranhas para levar para casa. Impressionante a dignidade desta pessoa. Tanto vestido de homem branco, ou como de chefe índio que é.

15/quinta Desmontamos o acampamento, e fomos visitar os Índios Xavantes na Reserva Pimentel Barboza . Antes de chegar lá, passamos pela famosa e lendária Serra do Roncador. Fiquei bastante emocionado. Chegamos na aldeia Apoé ás 12 horas, onde nos recepcionaram com uma grande festa. Danças, e mais danças, disputas de arco e flecha, e discursos. Ganhei uma gravata de guerreiro, e um nome xavante. Mamahé. Os americanos adoraram a festa e prometeram mandar mundos e fundos de presentes para os Índios. Se bem que até agora seis meses depois, não me consta que tenham mandado nada.

Moral da estória.

Como dizia meu avô, quem não tem competência, não se estabeleça.... Pensei que organizar uma pescaria no interior fosse quase tão fácil como uma saída de lancha. Planejei tudo direitinho, com cronogramas, back offs, e o escambau. Não contava porem com a irresponsabilidade do meu pessoal de suporte local. Talvez não seja bem irresponsabilidade. Talvez seja que não tenham tido a oportunidade de terem um treinamento adequado. Na pressa de fazer um ‘fast money “com o idiota carioca, mataram uma provável” galinha de ouro “, pois eu já tinha uns 12 outros clientes engatilhado para levar para lá este ano. E olha que os gringos nem ligaram para os U$ 1200, que cobrei deles. Os quais devido a todos os imprevistos que aconteceram, fora o achaque dos operadores locais, se desfizeram entre meus dedos, tendo que botar do meu, para fechar as contas...

Aprendi.

Agradecimentos.

Gostaria de agradecer a ajuda inestimável do Chefe Tsetetó Sfruape da Aldeia Guri, na Reserva Pimentel Barbosa, assim como do guerreiro T`Onhão, e do Guia Local Hiram Vieira Guimarães sem os quais eu nunca teria conhecido este paraíso.

Kdu Magalhães