| Rio das Mortes - Kdu Magalhães |
Como é duro ser guia em água doce.... Como sabem, tenho uma firma que leva gringos para pescar em alto mar. Eles chegam no cais as seis da manhã, pescam o dia todo, e voltam felizes à noitinha. O barco é meu, mantido por mim, com uma tripulação super eficiente. Não me lembro de jamais ter enguiçado em alto mar, ou de um cliente se queixar de alguma falha. Pudera, faço isto há 10 anos, e sempre tudo está sobre controle. Mas caí na besteira de pensar que podia virar guia em água doce. Levei uns clientes para pescar em território Xavante, no Rio das Mortes, perto de Água Boa. Quebrei a cara legal. Pegamos muito peixe, pois lá o território é muito pouco explorado. Fora isto tudo deu errado conforme podem ver pelo meu diário. Nesta hora é que devemos dar valor a empresários como o Ataualpa Catalan, o qual mantém o Rancho Xingu sempre funcionando como um relógio. Acompanhem o meu diário, para ver como imprevistos podem liquidar uma boa pescaria
Uma hora depois prosseguimos a viagem e chegamos as 16h00 no acampamento. Para nossa agradável surpresa estava tudo montadinho, com café quente. E uma paca assando, pois os índios tem licença para caçar. Impressionante como os índios trabalharam para abrir a picada do porto até o centro da ilha. Tinham até colocado um balde numa roldana preso ao um galho de árvore para tirar água do rio. Como nossa bagagem estava em outro barco, abrimos a mala do Skip, e tiramos roupas secas dele. Uma barraca também, que o David e o Maury, não conseguiram montar. Foi cômico. Depois descobrimos que o Skip tinha trazido os tubos de sustentação errados. Improvisamos um arroz com peixe, e uma sopa que tinham sobrado da viagem passada. Os outros chegaram as 17h30. Como ainda chovia, dormimos amontoados em baixo da lona grande que o Iram tinha armado..
O circle hook funciona mesmo. Mas batemos o lago todo outra vez, e nada de tucunarés. Na volta descobrimos as corvinas em frente ao acampamento. Após pegarmos muitas, chamamos o outro barco. Mas o piloteiro se recusou a vir, e levou o pessoal de volta ao acampamento. Fomos lá e pegamos o pessoal, e voltamos ao ponto para pegar mais corvinas. A moral está melhorando. À noite o David pegou um peixe enorme que levou toda a linha para o meio do rio. Provavelmente um filhote.
Definitivamente os gringos não sabem pescar. O David perdeu um peixe de uns 15 a 20 quilos. Como arrebentam muita linha, fico todo o tempo consertando equipamentos, e quase não pesco. Mas mesmo assim me diverti muito. Não tinha trazido meu equipamento de fly, pois meu objetivo não era pescar, mas sim trabalhar pro meus clientes. Mas mesmo assim, ao achar uns streamers na minha caixa de pesca, improvisei com uma varinha telescópica uma vara de fly. Coloquei um spiderware de 30 lb,(as linhas de multifilamento flutuam bem) e deixava o streamer deslizar rio abaixo. Recolhia na munheca, e pegava um peixe atrás do outro. Entrou até candiru Açu. Na próxima vez que voltar lá vou a forra. È o melhor lugar para pescar de fly que já pesquei até hoje. (se bem que não seja um “entendido"). À noite fomos pescar no lago Pintado. Ao encostarmos à margem do rio, em frente ao lago, lá já estavam dois de nossos barcos encostados uns no outro. Ao pararmos na margem junto a um dos barcos, um jacaré ficou imprensado entre o meu barco, e o qual encostei. Se assustou e pulou para cima. Caiu dentro do barco que já estava parado. E Graças a Deus vazio..Ao ver que tinha caído no barco o jacaré pulou para fora e caiu dentro do outro barco. Depois pulou para fora dentro do rio. Deu para filmar a cena. David e eu tomamos um porre à noite. Parece que agora as coisas já se acertaram. Os gringos só se confraternizaram com o cozinheiro Francisco Chagas Filho, por sua boa vontade e humor. Foi o único da equipe que deram gorjeta do bolso deles. 13/quarta. David de ressaca não foi pescar. Fiquei com ele para começar a empacotar minhas tralhas. Os outros voltaram para pescar na praia. Pegaram muito peixe, inclusive nas artificiais. À tarde pegamos muitos peixes, até piraras.
O nosso guia Índio, o Tonhão, pediu licença para pescar algumas piranhas para levar para casa. Impressionante a dignidade desta pessoa. Tanto vestido de homem branco, ou como de chefe índio que é.
15/quinta Desmontamos o acampamento, e fomos visitar os Índios Xavantes na Reserva Pimentel Barboza . Antes de chegar lá, passamos pela famosa e lendária Serra do Roncador. Fiquei bastante emocionado. Chegamos na aldeia Apoé ás 12 horas, onde nos recepcionaram com uma grande festa. Danças, e mais danças, disputas de arco e flecha, e discursos. Ganhei uma gravata de guerreiro, e um nome xavante. Mamahé. Os americanos adoraram a festa e prometeram mandar mundos e fundos de presentes para os Índios. Se bem que até agora seis meses depois, não me consta que tenham mandado nada.
Moral da estória. Como dizia meu avô, quem não tem competência, não se estabeleça.... Pensei que organizar uma pescaria no interior fosse quase tão fácil como uma saída de lancha. Planejei tudo direitinho, com cronogramas, back offs, e o escambau. Não contava porem com a irresponsabilidade do meu pessoal de suporte local. Talvez não seja bem irresponsabilidade. Talvez seja que não tenham tido a oportunidade de terem um treinamento adequado. Na pressa de fazer um ‘fast money “com o idiota carioca, mataram uma provável” galinha de ouro “, pois eu já tinha uns 12 outros clientes engatilhado para levar para lá este ano. E olha que os gringos nem ligaram para os U$ 1200, que cobrei deles. Os quais devido a todos os imprevistos que aconteceram, fora o achaque dos operadores locais, se desfizeram entre meus dedos, tendo que botar do meu, para fechar as contas... Aprendi. Agradecimentos. Gostaria de agradecer a ajuda inestimável do Chefe Tsetetó Sfruape da Aldeia Guri, na Reserva Pimentel Barbosa, assim como do guerreiro T`Onhão, e do Guia Local Hiram Vieira Guimarães sem os quais eu nunca teria conhecido este paraíso.
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