As trutas da Bocaina - Kdu Magalhães

Este artigo é dedicado ao Paulista Fernando de Oliveira que me ensinou os rudimentos da arte flyeira, e ao Carioca Beto Saldanha, que tentou me aperfeiçoar, mas desistiu.

As trutas da Bocaina.

Existem muitas. Porem é preciso saber como capturá-las.

Não basta pegar uma viatura 4*4, subir a Serra de Bananal, chegar no Lago da Aqua, preparar as varas e linhas, e começar a pegar peixe.

O buraco é bem mais embaixo.

Mesmo sendo o lago da Aqua um gigantesco pesque pague, onde abundam trutas de todos os tamanhos, as coisas não são tão fáceis como podem parecer a distância. Dependendo da temperatura da água, pressão atmosférica, ventos predominantes, épocas de acasalamento e desova, diferentes truques devem ser empregados para garantir trutas de mais de 100 gramas.

As coisas pioram quando se decide pescar nos rios locais. Encachoeirados, de difícil acesso, alguns deles dentro de um Parque Nacional, fazem com que corramos o risco de nos perdermos, nos machucarmos e sermos presos, se não tivermos um bom guia. Isto sem mencionar a grandes possibilidade de ficarmos no dedo. Isto acontece muito por lá, mesmo com pescadores de ponta, que se aventuraram sem um bom guia e sem conhecerem as peculiaridades locais.

A Bocaina tem dois contrafortes. O do Rio Paca, e o do Rio Mambucaba. Neste artigo, devido ao tempo e espaço disponíveis, só vamos falar do Rio Paca e seus afluentes.

Rio Paca.

Eu pensava que este rio estivesse morto, desde alguns anos atrás. Mas graças ao guia Carlinhos da Pousada Brejal, encontrei vários “points” bastantes interessantes. Já eram meus conhecidos, a queda dágua da represa da hidroelétrica naquele rio, assim como um lago posterior, que descobri não ter nome , e estou no momento tentando registrar no IBGE, como lago Atá , como já fiz há uns dois anos atrás com o Lago Raelão lá no Kuluene.

Há dois anos tinha pegado umas trutas nestes locais , mas no ano passado não consegui quase nada. Sem muita vontade de voltar lá, apelei para o Carlinhos, e ele me levou para o Paca, abaixo do encontro dos Rios Vermelho e o Rio Vargem Alegre .

Ao contrário do Rio Mimoso, que é um rio calmo e com grandes poços, o Paca é um rio bastante encachoeirado e de difícil transito.

Usei dois tipos de equipamento. Um com linha floating para lugares mais calmos, e outro com linha sinking para as corredeiras. Porem foi o rio com maior incidência de ataques.

Não resisti aos apelos do Carlinhos, e reservei três para comermos à noite.

É impressionante a diferença de gosto da carne de uma truta selvagem, para as trutas de cativeiro. A paisagem é deslumbrante, com altos pinheiros, e araucárias que realmente nos levam a pensar estarmos no hemisfério norte.

Rio Mimoso.

Quer fazer média com sua mulher? E pescar muitas trutas ao mesmo tempo? Vá se hospedar na Pousada do Mimoso, que é uma graça, cercada por trutas de tudo quanto é lado. Mas se não tiver um 4*4 prepare uma nota para pagar um transporte de Bananal até lá, pois a estrada é longa e quase intransitável. Mas vale a pena. Foi muito engraçado cruzar uma ponte no caminho, debaixo da qual pudemos observar um monte de trutinhas recém nascidas.

Como já disse é um rio muito calmo, com as margens de fácil acesso, cercada de gramados.

As trutas por lá tem menor incidência do que no Rio Paca, porem são maiores.

Cuidados porém tem que ser tomados, pois parte da área está dentro do Parque Nacional, e apesar dos fiscais locais não estarem nem aí para a exploração ilegal de madeiras e palmitos, não podem ver um bonitão flyeiro, sem quererem tomar uma nota. Mas o risco vale a pena pelo o que podem ver pelas fotos. O guia local é um garotão muito simpático chamado Israel, que conhece tudo por lá.

Projeto Aqua.

É um gigantesco trutário, alimentado pelo Rio Paca que cai das cachoeiras dos Sete Pilões, (Foto dos pilões e dos lagos) com vários lagos interligados, onde os excedentes de sua produção de trutas são lançado. Lá já peguei trutas de mais de três quilos quando não é época de acasalamento, e a temperatura da água não está muito baixa. Mas elas só foram capturadas com iscas vivas (lambaris ou barrigudinhos) ou filés frescos de truta. Raramente entram em artificiais ou moscas , porque geralmente se escondem nas partes mais fundas do lago. Tem que ser na lingüiça mesmo. Como nesta minha ultima ida, só pesquei com artificiais e de fly, as 2 fotos das trutonas na lingüiça são do ano passado.

Já as fotos com fly e artificiais, são do início de Maio de 2005.

O segundo método mais produtivo, é o emprego de iscas de meia água, ou mepps.

Quanto maior a isca, maior a possibilidade de pescar um peixe maior e também de ficar agarrada no fundo do lago que é cheio de algas.

Quanto aos meus preciosos amigos flyeiros, eles tem duas opções: A primeira ficar no dry fly, pegando uma trutinha atrás da outra,

e sendo levados à loucura pela vegetação rasteira e espinhenta do local que o tempo todo fica agarrando na linha recolhida. A outra opção é apelar para a técnica de pescar por trás dos tubulões que levam a água do criatório para o lago, usando sinking lines, de preferência com um split shoot para ajudar afundar. Peguei algumas de mais de um quilo assim, Aliás, aprendi até uma técnica nova. Lá pelas tantas, já meio cansado, deixei a linha na água e fui fumar um cigarro. De repente uma truta de umas 800 gramas, deu com o meu streamer balançando na correnteza lá no fundo, gostou, atacou, e quase carregou minha tralha para o fundo do lago.. Será que poderíamos chamar esta técnica de ‘Fly de Espera “?

Como chegar e onde ficar...

Bananal fica aproximadamente 153km distante do Rio de Janeiro e 314 Km da capital Paulista, Bananal teve seus primeiros fundamentos lançados no ano de 1783. Vindo de São Paulo ou do Rio, quando começarem a chegar perto de Barra Mansa fiquem de olho no aviso da saída 273. Se forem do Rio, virem a direita e passem por baixo da estrada. Se vierem de São Paulo também virem a direita “ó pá.” Andem uns 25 quilômetros , e logo chegarão em Bananal , uma cidadezinha linda, muito limpa e organizada. Pudera, a Prefeita, a Delegada, a Promotora e a Juíza são mulheres , e se todas forem como a Prefeita, igualmente charmosas. Vale a pena uma parada para ver uma antiga estação ferroviária., com uma antiga Maria Fumaça em exposição. A Estação Ferrovária importada da Bélgica, é a única do gênero no mundo. Foi projetada em forma de "Kits", uma tecnologia considerada avançada para a época. Trata-se de um edifício metálico, composto de placas de aço pré-moldado, importadas daquele país no final do século passado. Para que se compreenda o valor histórico da Estação, basta dizer que ela foi inaugurada em 1º de janeiro de 1889, apenas doze anos após ter sido completada a ligação ferroviária Rio- São Paulo, pela Estrada de Ferro D. Pedro II, mais tarde transformada na |Central do Brasil.
Outro local imperdível é uma a farmácia , cheia daqueles frascos de cristal, super coloridos.

A Pharmácia Popular - a mais antiga do Brasil foi inaugurada em 1830.

Para quem não tem pressa, pernoitar no Hotel Fazenda 3 Barras, remanescente do Período áureo do Café é uma grande pedida.

Logo que saírem de Bananal vai começar a encrenca. A estrada que leva à Bocaina está em péssimo , friso, péssimo estado. Razão? Ela foi projetada para carros e caminhões leves, mas devido ao desmatamento atual, legal, mas lamentável do mesmo jeito, os grandes caminhões madeireiros a estão destruindo. São 24 quilômetros de mau caminho até chegarmos a Aqua. Sem contar o perigo de sermos abalroados pelos caminhões madeireiros que descem a toda velocidade. Quase que fui jogado para fora da estrada no meio da serra. É preciso tomar muito cuidado nas curvas.

Se o destino for pescar na Aqua, aconselho a ficar hospedado na Estalagem da Bocaina. Simples, mas com bom atendimento.

Se por outro lado quiserem mais ação e optarem pelo Rio Paca, aconselho a Pousada Brejal, onde encontrarão o guia Carlinhos que sabe de tudo.

Para os que gostam de conforto e possuam um 4*4 ou não se importam de alugar um em Bananal, a pedida é a Pousada do Mimoso a qual definitivamente é a mais confortável do local.

Para terminar: Eu estava na Pousada do Brejal quando às quatro horas da manhã ouvi a buzina de um ônibus escolar que tinha vindo de Bananal há 30 quilômetros de distância, em uma estrada perigosíssima para pegar a filha do Carlinhos para ir para a escola, de onde só voltaria às 5 da tarde devidamente cuidada e alimentada. Este fato, me levou a pensar pela primeira vez em muito tempo, que talvez o Brasil ainda tenha jeito.

Locais onde ficar

Estalagem da Bocaina Pousada do Brejal Pousada do Rio Mimoso
Suítes $ 55,00 .... 180,00
Quartos $ 45,00 45,00 90,00
Refeições Só café da manhã Todas refeições Todas refeições
Telefones e URL (0xx12) 31161519
probocaina@uol.com.br
(0xx24) 99933999

(0xx24) 33771101
(0xx24) 81183479

Kdu Magalhães